Usou uma garrafa plástica de 1,5l — você jamais
Com a garrafa cheia de vapor de álcool, é só acender sua garrafa a jato. Os efeitos podem ser vistos melhor no escuro, e várias tentativas podem ser necessárias para conseguir ver a chama descendo vagarosamente pelo recipiente.
O que está acontecendo aqui? O vapor de álcool misturado ao ar já contém o combustível e o comburente, e o fósforo dá ignição. Como sabemos, isso provocaria a combustão, mas uma não muito espetacular, como a que você pode provocar acumulando um pouco do gás do isqueiro em sua mão e dando a ignição. Apenas um estalido, a mistura é altamente combustível, mas provocará apenas uma pequena explosão.
O que gera o efeito bacana da combustão se estendendo lentamente pela jarra é o recipiente, limitando a mistura entre o combustível e comburente. E é também o recipiente que responde pelo segundo efeito do jato e o som que a jarra faz por alguns instantes. Este é literalmente, e não apenas por brincadeira, um motor a jato. Um tipo específico de motor a jato por pulsos, um dos primeiros criados.
Há uma interação nada simples entre a explosão expandindo-se no interior do recipiente, as ondas de choque e o ar que é sugado para o interior. São explosões por pulsos que irão ressonar com o recipiente, provocando esse ruído que ouvimos ao final. Procure por “Jam Jar Jet” (Jarra de Geléia a Jato) e verá muitos exemplos deste segundo efeito:
Como comentamos antes, isso é o que acontece quando você deixa álcool líquido de sobra no fundo do recipiente. E como comentamos antes, no vídeo acima escolhi justamente um em que o pote de vidro quebrou ao final. Não use potes de vidro a menos que queira apreciar as queimaduras de um coquetel molotov surpresa.
Devido ao pequeno número, ou mesmo completa ausência de partes mecânicas, o pulse jetfoi um dos primeiros motores a jato usados na prática, notoriamente nas bombas voadoras V-1, armas de vingança de Hitler disparadas contra a Inglaterra. Elas também emitiam um zumbido, que só era mais temido que o silêncio: quando o zumbido de uma V-1 era interrompido, isso significava que o motor a jato havia sido desligado e a bomba estava em queda livre para seu destino final. O próximo ruído seria um “cabum” letal.
O ruído de motores pulse jet pode ser mesmo infernal, como nestes exemplos:
Lembre-se de que o ruído é o barulho de sucessivas explosões, e cada um destes pulsos é uma onda de compressão e detonação auto-sustentada. Para quem aprecia fenômenos físicos e engenharia é algo belíssimo, com o único revés de que justamente pela compressão ser apenas aquela criada pela onda de choque, a eficiência e o impulso que geram não é muito grande. É por isso que aviões a jato trabalham com compressores com milhares de componentes e não usam garrafões de água gigantes com álcool de cozinha.
A velocidades supersônicas, contudo, a dinâmica é diferente, com ondas de choque representando na prática paredes quase sólidas. Motores a jato de princípios não muito diferentes podem responder por empuxos gigantescos. Um Scramjet não é tão distante da garrafa a jato que você pode criar.
Mas e quanto às morte por ondas sonoras? Desesperados por ideias para armas de vingança, nazistas também exploraram o barulho ensurdecedor de um pulse jet. Após a Segunda Guerra foram encontrados refletores parabólicos parte de experimentos para criar uma arma sônica. Não muito diferente do princípio de um pulse jet, mas aqui com o objetivo de provocar ondas de som com a maior intensidade possível. Para matar, é claro. Combustível seria bombeado, entraria em ignição e ao explodir, provocaria uma onda de choque poderosa que em parte provocaria a ignição do próximo pulso.
A arma não foi muito longe, ondas de choque são uma forma notória de dissipar energia. Por mais poderosas que fossem as explosões, por mais que a ideia de matar alguém colocando seu som no último volume possa parecer, o alcance letal de uma arma sônica nunca será muito grande. Some a isso o detalhe de que os refletores parabólicos eram enormes blocos de concreto, e o fracasso desta arma não é nenhuma surpresa.